Três Mulheres a Caminho da Paiva Rosa, Delfina e Maria Augusta, três mulheres que passaram a maior parte das suas vidas, em viagens constantes entre a Gralheira e a região do Paiva. Levavam trigo que vendiam ou trocavam por azeite, feijão, milho, etc. Eram conhecidas naquela zona como padeiras da serra e queridas como pessoas de família. Ao longo das suas caminhadas, várias peripécias lhes aconteceram. Umas lutando contra as intempéries; outras contra os lobos: e ainda outras contra gatunos atrevidos. Mas a que agora vou contar, não esta incluído em nenhuma daquelas. Passa-se no fim dos anos vinte, altura em que a Rosa e a Delfina deviam ter quarenta e poucos anos e a Maria Augusta, ainda jovem, pouco mais teria que vinte. Levantavam-se cedo quando tinham de ir para Paiva, mas como não tinham relógio, nunca sabiam a que horas se levantavam. Orientavam-se pela Lua, pelas estrelas e pelo cantar do galo. Só que um dia, a Delfina, mais conhecida por Gaga do Gil, acordou demasiado cedo, e, ao ouvir cantar o galo à meia noite, Julgou ser o canto da madrugada. A Lua que já pendia para o ocaso, dava ainda alguma claridade que ela confundiu com o amanhecer. Chamou as companheiras e puseram-se a caminho. Quando chegaram às Portas de Montemuro, a Lua desapareceu e a
escuridão envolveu toda a serra. Sem poderem continuar a caminhada, resolveram
encostar-se a um penedo e aguardar que a madrugada rompesse. A jovem Maria Augusta, ainda
pouca habituada àquelas andanças, tremia de medo ao ouvir o uivar dos lobos à
distância. A Delfina, mais familiarizada com aquelas situações, sentia-se à vontade e
falava pêlos cotovelos, alto e bom som. A certa altura, a Maria Augusta que só via
fantasmas, pareceu-lhe ver o vulto de três homens a esconderem-se atrás de uns penedos
já muito próximos. Apavorada diz para as companheiras: Entretanto, o homem que vinha à frente e parecia ser o comandante do grupo, perguntou-lhes o que faziam ali aquelas três mulheres, aquela hora. Claro que só a Gaga lhe respondeu. Disse-lhe que eram umas almas de Cristo muito pobrezinhas e que iam para a Paiva vender trigo, mas como escurecera, aguardavam que chegasse o dia para continuar viagem. O homem identificou-se como sendo tenente do Exército, que estava ali há três dias com um pelotão do Regimento de Lamego, para interceptar uns tais Camilos de Cotelo - Castro Daire - que se dedicavam ao transporte ilegal de milho, da região do Paiva para Lamego. A Gaga logo confirmou que era verdade e pediu que os castigasse porque eles não obedeciam a ninguém. O tenente ao verificar que as outras duas não falavam e mesmo aquela gaguejava, conclui que estavam cheias de medo. Então, convidou-as a juntarem-se a eles até romper o dia, sem receio, pois tinham lá uma grande fogueira onde se podiam aquecer. Com uma certa resistência, por parte da Maria Augusta, que de facto estava apavorada, lá foram até ao local onde estava o pelotão. Ao romper do dia, quando as três mulheres já se preparavam para
seguir viagem, ouviram à distância a algazarra dos Camilos e o som da guisalhada que as
mulas traziam ao pescoço. A Gaga foi a primeira a pressenti-los e logo disse para o
tenente: O tenente mandou formar o pelotão em duas alas, uma de cada lado do
carreiro. Deu ordens para carregar as armas e aguardou a chegada dos Camilos que eram
valentões e andavam bem armados. Quando estes já estavam próximos, o tenente, colocado
à cabeça do pelotão, ordenou-lhes: Os Camilos ao verem que não adiantava resistir, obedeceram seguindo
para Cinfães, onde tiveram que prestar contas à justiça. Mais tarde, nas suas deslocações à Paiva, também levava consigo uma
sobrinha em segundo grau e para comover aquela boa gente a fim de tirar o maior proveito,
dizia que a sobrinha era filha de uma mulher muito pobrezinha que tinha oito filhos, um de
cada pai e que aquela era a única que podia ajudar a mãe. Claro que choviam as esmolas e
comida não faltava. Quando a sobrinha se recusava a comer, porque não podia mais. a Gaga
dizia-lhe baixinho: A Delfina tinha uma irmã chamada Maria e viviam juntas. Mas a Maria
tolhia-se com medo da Delfina que, por isto ou por aquilo, de vêz, em quando lhe dava
urna surra. A Delfina era assim. Batia na irmã mas não podia ver-se sem ela. Mulher valente, uma heroína que venceu as tempestades através da serra; que enfrentou corajosamente os lobos; e nunca temeu alguém que lhe aparecesse no caminho. Companheira da Rosa nas viagens para a Paiva, quis ser também companheira da morte. Morreram ambas no mesmo dia, já velhinhas e foram enterradas na mesma sepultura. E a neve, companheira de tantas viagens, também não faltou no funeral, pois morreram em dia de forte nevão. Gralheira, 30 de Novembro de 1988 |